27 Out. 2012 // 13 Out. 2013

caderno de viagens | JÚLIO RESENDE | Brasil

Galeria do Acervo | Collection Gallery

Os registos do Brasil são abundantes, deles ressaltando a emanação dos Trópicos como fonte geradora de Vida na harmonia do Homem com a Natureza.

Não estou movido por um sentimento nostálgico, porque situado entre as quatro paredes do atelier, tenho o Brasil no atelier ou onde quer que me encontre... Talvez motivado por uma necessidade de retoma de certo gesto. Já sinto movimentar-se-me a mão numa exaltação luminosa explodindo de alegria, Sim! Eu vira uma criança e um papagaio inundados de luz.

O fascínio do Brasil poderá ser explicado pelos sociólogos para um artista que não busca a explicação, mas o entendimento terá de submeter-se à experiência viva no confronto imediato.

O nordeste brasileiro entrou em mim como um desiderato que o destino quis proporcionar.

Tudo se dá em harmonia, nela participando o baloiçar do coqueiro, o andar da moça e o som da cuíca...

É liberto da carga de muitos conceitos que passo a olhar e a ver o mundo.

Aguarela rápida e inexorável requerendo uma acuidade visual, nem sempre facilitada pelas circunstâncias das condições. Dobrado sobre mim próprio, quantas vezes, o bloco assente no piso, a caixa de aguarelas ao lado, as poeiras que se levantam, ou os insectos insaciáveis que invadem a caixa das aguarelas, para não citar a clareira do sol que abrasa o plano do papel e castiga os olhos, Assim se passa, O documento o esconde, ou talvez o diga...

Tinta da chino e aguarela em festa! Lá estão as tais diagonais, como ressonância do Brasil, para todo o sempre. Génese de uma pintura a óleo que acabou por não acontecer...
A vida é um momento!

É noite. Vindo do extremo da rua deserta, chegam vagos sons de melodias que na praça empedrada fez juntar as pessoas para dar gosto ao corpo até noite alta, Cachoeira adormece…

O Brasil que me tocou foi o do Nordeste e a ele devo uma nova concepção do espaço pictórico, aquele isento de peso físico.

O baloiçar das folhas dos coqueiros, a melodia que chega não se sabe de onde, a fala das gentes, o andar da moça, estão todos na génese destas formas.

A rede, em tudo que é lugar, para o prazer se agarrar ao corpo. O artesão em Olinda faz saltar pedaços de alma ao madeiro e canta uma canção, enquanto a moça sonha na teia de um tapete da memória.
Que tem a ver isto com a pintura que faço?…

No arvoredo em pequeno círculo do traçado urbano, a horas certas, chegam homens sem idade com seus pássaros de estimação em gaiolas artesanais do capricho de cada um.
Nos ramos certos, suspendem as gaiolas, num sorriso todo branco, durante horas para esquecer.
Uns metros adiante tento os meus esboços.

No alto, é um azul que cai ao encontro do rosa que se estende em gradação. Intercepta esta corrida um negro desfeiteando a sua verticalidade. Assim imprime o poder negro num acinte oblíquo. No meio dele o rosa, aqui mais declarado, submete-se à intenção do negro. Isto terá sido, e foi, um homem sentado por terra saboreando uma fatia de melancia. Nada mais prosaico…

Quando o Sol, declina Cachoeira acorda lentamente.
As janelas coloniais abrem-se à aragem fresca e nelas despontam moças segurando pássaros multicolores. Por elas passam outras moças que ali param para confidências amorosas.

Júlio Resende
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1971.011  | 1971 | A NATUREZA E O HOMEM NA MAIS COMPLETA HARMONIA | AGUARELA| 20,0 X 15,0
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