04 Jun. 2017 // 09. Jul 2017

ALBERTO PÉSSIMO | “LAVOURA”

OS FRAGMENTOS QUE A LAVOURA DEIXA ATRÁS DE SI

Sala de Exposições Temporárias | Temporary Exhibitions Room

Alberto Péssimo foi um dos leitores que acabou de descobrir o genial Raduan Nassar e leu Lavoura arcaica. Aquela linguagem delirante e trabalhada com o arado tinha de deixar marcas. Apesar de o texto ter sido publicado pela primeira vez em 1975, só agora, e por causa do prémio Camões, tomámos consciência desta joia da literatura lusófona. O texto é uma anunciação e, como tal, um rasto, mais do que um clarão, algo que não pode ser aprisionado nem compreendido inteiramente. Um pouco como a lavoura destes quadros.

Desde há tempos que procurávamos um título para a exposição, sem o encontrar. Há dias, cheguei ao atelier de Alberto Péssimo ao final da manhã. Uma manhã radiosa de primavera. Antes de dizer ‘bom-dia’, disse-me: ‘a exposição chama-se Lavoura’. Pensei para mim: ‘é isso, não podia chamar-se doutra maneira’.

A lavoura de Alberto Péssimo esventra o campo, esconde o que está à superfície e traz à luz a terra fumegante do interior. As aves descem, festivas. Os bois puxam o arado enquanto ruminam esforço e paciência. O arado puxa o lavrador através dos sulcos. O que ele quer mostrar é este momento da lavra, não da sementeira e, muito menos, da colheita. Nesta lavoura, um é o que lavra, outro o que semeia e outro o que colhe. Nenhuma das acções é simultânea e executada pelo mesmo sujeito.

Nuno Higino, excerto do texto do catálogo

flyer da exposição
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Sem tÌtulo V, 2017, colagem, tinta da china e acrÌlico s/ madeira, 120 x 170 cm.
Sem tÌtulo V, 2017, colagem, tinta da china e acrÌlico s/ madeira, 120 x 170 cm.
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