29 Jun // 27 Jul 2019

NOROESTE-SUDESTE: NOVAS PERSPETIVAS EM DESENHO

Sala de Exposições Temporárias

A segunda edição da exposição Noroeste-Sudeste reúne trabalhos e projetos de 12 autores que colocam o desenho no centro da sua prática: um amplo espectro de abordagens ao desenho que revela a sua contínua atualidade na arte contemporânea, a sua relação com a história e a retórica das imagens.

Conscientes da impossibilidade de definir e usar o desenho num único sentido, estes autores questionam o que pode ser o desenho para a sua geração; como dialoga com as diferentes artes e como constrói e altera a perceção de si próprios e do mundo.

Noroeste-Sudeste é também uma linha imaginária entre dois pontos cartográficos: a linha que, no mapa, liga a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto ao Lugar do Desenho, na Fundação Júlio Resende. Mas este movimento oblíquo é mais do que uma mera referência geográfica. Ao desviar-se dos principais pontos cardeais, a exposição quer construir um espaço para o desenho que se situa fora das definições mais estáveis e das ideias preconcebidas sobre o que deve ser o desenho.

O desenho é, para esta nova geração, um conceito essencialmente contestado. E nenhum aspeto desta exposição torna isto mais evidente do que a extrema diversidade da origem destes autores, assim como de temas, contextos, processos e meios que estes desenhos convocam: da ilustração ao diagrama, do carvão ao digital, da fotografia ao têxtil, do documentário à autoficção, da performance à etnografia, da memória cultural à narrativa biográfica.

‘Conceito essencialmente contestado’ é uma expressão popularizada pelo filósofo W. B. Gallie para explicar que certas ideias não podem ser resolvidas com um único argumento; são ideias inconciliáveis com atitudes dogmáticas (esta definição é que é a correta), céticas (qualquer definição é igualmente verdadeira ou falsa) ou ecléticas (cada definição é uma visão parcelar que se aproxima de uma visão global). Estes conceitos, como o de arte, justiça ou liberdade, são caracterizados pela contradição e pela contestação. Esta contestação não tem a ver com um uso casuístico ou impreciso das ideias. Pelo contrário, reconhece nos padrões dinâmicos das suas mudanças e disputas o seu elemento mais característico.

Ver o desenho enquanto prática essencialmente contestada implica concebê-lo como sistema complexo e aberto. Esta é a única forma de lidar com ele, como argumenta Deanna Petherbridge: ver nele um continuum que se estende entre o finito e non finito, entre o conceptual e o percetual, o abstrato e o mimético. Os debates que fazem oscilar o desenho entre a condição do esboço e a da apresentação, entre a improvisação e a medida, entre o código e o gesto, o controlo e o desprendimento, fazem-no como um movimento pendular que não se estabiliza em nenhum ponto.

Para os autores de Noroeste-Sudeste, o desenho é um valor de uso — que adquire sentidos diferentes de cada vez que é usado — não uma autografia. Isto justifica em parte as mudanças que ocorrem no interior da sua prática, a sua capacidade em oscilar entre linguagens e meios ou, por vezes, a sua recusa de um estilo.

Desenhar enquanto prática essencialmente contestada, aberta a usos, meios e intenções que se contradizem, sem se anularem: este é o movimento oblíquo que a exposição, pelo seu seu segundo ano, pretende percorrer.

PARTICIPAÇÕES
Transumância (Ou Ensaio Sobre a Fronteira), Ana Valquaresma
Au7ópsia — Setênios Antroposóficos, Arthur Pugliese
Bordado e Fotos de Família — Construindo Ligações Através da Linha, Bruna Morena
Costurar com a Linha do Tempo — O Têxtil como Memória e Identidade, Catarina Casais
A Ciência Anterior — Programa de Investigação de Mundos Anteriores, Chana de Moura
Passagens por Terras de Ninguém, Fábio Araújo
Emotions Are Bugs, Filipa Gwan
Desenhar a Morte: Um Registo da Percepção da Morte Animal, Flor de Ceres Rabaçal
Pensamento Visual (In)consciente, Joana R. Sá
Corpo Híbrido — Da imagem Apotropaica ao Desenho Intransitivo como Potência Vital, Mariana Barrote
As Cidades Invisíveis, Pedro Moreira
Alegorias de um Passado Presente – Vestígios das Narrativas Coloniais, Tiago Eiras

ORGANIZAÇÃO
Paulo Luís Almeida, Pedro Maia [Estúdio de Desenho]
Mestrado em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP)

A exposição inaugura a 29 de Junho (sábado) às 16:00.



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